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Tuesday
Jul012003

O fantástico mundo de Matthew Barney

POR MARIA TERESA SANTORO
REVISTA TROPICO

2003


O artista americano quer criar a mitologia do novo milênio com seu ambicioso "Ciclo Cremaster"

Cremaster: do grego “kremastér”. Na anatomia quer dizer fino músculo que serve para elevar os testículos. Também é entendido como símbolo da sexualidade masculina.

Fadas musculosas com esquisitos penteados em forma de bolas vermelhas, corredores de “rally” com espermas saindo dos bolsos, um prisioneiro coberto de abelhas, alpinista em escalada pelas paredes de um palco vazio, mulher leopardo, mágico e outras andróginas criaturas habitam um mundo fantástico, construído pelo artista multimídia americano Matthew Barney.

Seu projeto, composto por cinco filmes (desenvolvidos entre 1994 e 2002) e uma exposição, foi reunido sob o título de “Ciclo Cremaster” e estreou na Europa, em junho último na Alemanha, e até janeiro de 2003 no Museu de Arte Moderna de Paris.

Originalmente organizado pelo Museu Solomon R. Guggenheim de Nova York, o “Ciclo Cremaster” reúne desenhos, esculturas, fotos, objetos e a projeção de cinco filmes (na seqüência de sua filmografia, Cremaster 4, 1, 5, 2 e 3), onde performances de mágicos e fadas, travestis, reis, esportistas, corredores, estrelas, gângsteres e criaturas híbridas são apresentados através de um enredo que muitas vezes começa e termina no nada.

Quem está de acordo que tanto na vida quanto na arte não é preciso entender tudo, pode apreciar os filmes de Barney como quadros em movimento, onde corpo e espaço são expandidos, deformados e reconstruídos, numa variada gama de possibilidades.

Chamam a atenção o requinte e os detalhes dos figurinos, a escolha e a adaptação das locações dos filmes, a maquiagem dos atores, suas performances atléticas e muitas vezes inimagináveis, a construção e a metamorfose de alguns corpos e objetos, entre outras surpresas que tanto os filmes quanto a exposição projetam. Não menos surpreendentes são os objetos construídos com sal, tapioca, mel, vaselina, geléia de petróleo, vinil e próteses plásticas que fazem parte do cenário dos filmes e que são apresentados na exposição.

Em seu âmago, o “Ciclo Cremaster” objetiva a construção de uma mitologia para o novo milênio, baseada na figura retórica do oxímoro, ou seja, na construção de idéias opostas que se fundem em uma unidade impossível, sem caminhar para a síntese. Assim, Barney elabora uma literatura fantástica, fundada na (des) construção de organismos-personagens-heróis polimórficos que habitam uma terra de ninguém -seus cenários ou sua cosmologia- em uma narrativa anti-racional, ou seja, que não se fecha. Segundo a curadora Nancy Spector, as criaturas de Barney são inspiradas em sua experiência anterior como esportista e seguem a filosofia de que a forma só pode tomar uma configuração ou mutar quando resiste contra uma força oposta. Assim, um dos conceitos de seu trabalho é ultrapassar os limites do corpo através do treino físico, em uma pressão atlética e narcisística de poder, da realização daquilo que é impossível fisicamente. O corpo é, para o artista, tanto órgão de reprodução, quanto instrumento esculturável.

Buscando essa transcendência física e psicológica do organismo humano, seus heróis são seres híbridos e têm como modelo o ser biológico em sua fase de indiferença pré-genital (embrionária), fase de pura energia potencial, aberta para as possibilidades. Concretizadas, essas criaturas espelham organismos autárquicos ou independentes: são organismos herméticos, fechados em si mesmos, sem sexo definido, ou organismos cibernéticos, uma mistura entre o natural e o artificial.

Assim é o “Loughton Candidate”, por exemplo, uma criatura ruiva, meio homem e meio bode, encarnada por Matthew Barney em “Cremaster 4”, o primeiro filme da série, de 42 minutos, de 1994. No filme, ambientado em Isle of Man, famosa por suas corridas de motocicletas, o Candidato é um sátiro -um semideus selvagem, com pés e pernas de bode- que sapateia uma melodia repetitiva na sala branca de um pier, acompanhado por três andróginas e musculosas fadas de cabelos vermelhos.

O take seguinte apresenta dois corredores que voam com carros de diferentes escuderias, uma azul e outra amarela, pelas sinuosas pistas da ilha, subindo e descendo curvas. Take 3: o sátiro continua sua performance, até que seus sapatos, encantados pelas fadas, abrem um buraco no assoalho e ele cai no mar. No take seguinte, ele nada para a superfície, mas para alcançá-la tem que escalar ainda um túnel de vaselina, muito estreito e labiríntico -uma metáfora do útero feminino-, por onde ele se arrasta de forma hercúlea. Em cenas paralelas, os dois times continuam suas corridas em direções opostas, a de uma colisão que se estende no vazio e não acontece.

Enfim, Cremaster 4 sintetiza a metáfora das forças bipolares, exemplificadas nas corridas opostas, ascendente e descendente, no contraste entre corpo e máquina e suas forças, reunidos, no final das odisséias do homem e da máquina, em um terceiro composto dos dois pólos: uma forma criativa que conjuga a simetria de um real impossível.

Continuando sua metamorfose, em 1995 aparece “Cremaster 1”, filme de 40 min., ambientado no estádio de futebol americano de Bronco, Idaho, onde Barney passou sua infância. No glamouroso estilo dos filmes dos anos 30, este filme se centra na música e na coreografia, tecendo um ritual dentro do universo feminino, protagonizado pela garota da Goodyear.

Take 1: dois zepelins suspensos sobre o estádio de futebol têm quatro aeromoças cada um. Caladas e enfadadas, elas executam mecanicamente suas tarefas de bordo. No meio das duas cabines de cada zepelim encontra-se uma mesa decorada com cachos de uvas.

Take 2: embaixo das mesas, em um recinto apertado, esgueira-se, em “négligé” de seda branca, a loira platinada Goodyear na laboriosa tarefa de abrir orifícios sob as mesas, a fim de alcançar as uvas. Com dificuldade ela consegue abrir orifícios sob as mesas, de onde começam a cair as uvas, que vão formando diagramas dos órgãos reprodutivos masculinos e femininos.

A cena seguinte mostra os diagramas, espelhados tanto pela figura uterina estampada no campo de futebol, como pela coreografia de 55 bailarinas, que são acompanhadas pelo ritmo esfuziante da música, à moda dos musicais de Hollywood. No glamour de Cremaster 1 está a narrativa da possibilidade do organismo em sua fase embrionária ou uterina, sintetizada pela indiferença dos atores, pela música repetitiva e pela coreografia das bailarinas.

Melancólico e também feminino, “Cremaster 5” é o filme de 1997, de 54 min. Ambientado na bela Budapeste, conta a história de amor e tragédia entre a Queen of Chain (estrelada por Ursula Andress) e o legendário mágico do século XIX -herói de Matthew Barney- Harry Houdini (incorporado pelo próprio artista, que encarna três figuras: a do mágico, a do alpinista Diva e a do gigante).

O filme começa com a triste Queen of Chain sentada em seu trono, cercado de pombas jacobinas, assistindo à ópera e à escalada acrobática de Diva em torno das paredes e do teto de um palco vazio. A enlutada rainha canta uma triste ária pela morte do amado mágico, lamentando um suicídio.

Take 2: perseguindo a transcendência do corpo através do autodomínio, a cena apresenta a performance do mágico-Barney, na pele de Houdini: acorrentado nas mãos e nos pés, ele se atira de uma ponte do rio Danúbio esperando, com um truque mágico, libertar-se das correntes.

Take 3: as pajens da rainha apontam para um buraco sob o trono e a câmera o atravessa, mostrando as termas do Hotel Géllert, com as piscinas cobertas de pérolas de vidro, de onde surge a figura barroca do gigante Barney, cercado de andróginas ninfas que se movimentam lentamente pela água.

Take 4: o gigante estende as mãos para a rainha e, nesse gesto, é acompanhado pelas pombas que saem em revoada. Final do filme: morte do mágico Houdini; morte de Diva em queda sobre o palco, além do entoar da rainha de um canto de morte. Desejando se encontrar com o amado, suas lágrimas escorrem para as termas, espalhando-se em dois círculos pelo rio Danúbio.

Como em Cremaster 1, a história é contada de uma perspectiva feminina, assim como feminino é o lugar por onde começa e termina a vida. Cremaster 5 termina com duas alternativas -vida e morte- fechando um ciclo de possibilidades: é o último filme na organização do “Ciclo Cremaster”.

Harry Houdini, o famoso mágico performático de Budapeste do século XIX, aparece ainda em “Cremaster 2”, de 1h19min., 1999. Nesse filme, tudo se transforma, a começar pelo roteiro, que mescla a história macabra e real do assassino americano Gary Gilmore com o romance “A Canção do Carrasco”, de Norman Mailer, sobre esse personagem.

No filme e no romance Gilmore figura como neto do mágico Harry Houdini. Mistura de mundos, o real e a ficção, de dois personagens e de dois tempos que se amalgamam: o tempo de Houdini, 1893, durante a Exposição Mundial de Chicago, quando apresenta sua famosa performance -preso dentro de umacabine, se liberta de correntes-; e o de Gilmore, 1977, que ficou famoso por ter pedido, após sua condenação, para ser executado.

O mágico é interpretado pelo próprio escritor Norman Mailler, enquanto Gilmore é encarnado por Matthew Barney. Ambos são, por sua vez, ora combinados, ora confundidos com outras figuras, como a do mágico em um machista, um caubói, um “rock star”, ou um vigia de posto de gasolina. A possibilidade de transformação se estende ainda para as imagens espelhadas de gelo e água, ao norte de Utah, no início do filme, passando para as montanhas geladas de Columbia, no Canadá, no final do filme, caleidoscopicamente movidas pela câmera para uma posição vertical na tela.

Houdini, assim como Gilmore, estão ligados ainda ao mundo das abelhas, ou ao mundo simbólico-religioso de uma comunidade de Utah: os mórmons, que têm, nas colméias que cultivam, o símbolo da estrutura social. Na sequência dos takes, a família de Houdini é retratada como da natureza das abelhas, e Houdini é um zangão, que almeja a posição da abelha rainha para se libertar de seu destino de morte.

Sua mulher, Baby Fay, é a abelha rainha. Ela aparece trajada com um espartilho que lhe proporciona uma cintura de vespa, assim como é de vespa a indumentária de seus outros parentes. Mais do que moda, para o artista, o uso do espartilho promete a superação da dor física e de si mesmo.

Houdini e Gilmore têm o destino do zangão: depois de inseminar a rainha, eles devem morrer. Gilmore sabe de seu destino, metonimicamente representado por uma figura humana coberta de abelhas e pela música com zumbidos que integra a trilha sonora. O próximo take apresenta o sangrento assassinato, protagonizada por Gilmore-Barney e pelo vigia-vítima, em um posto de gasolina de Utah. Nesse local estão dois automóveis Mustang (Gilmore e sua namorada possuíam Mustangs), ligados por uma estrutura-túnel feita de cera de abelha.

A cena seguinte mostra o julgamento de Gilmore, que acontece na sala de órgão de uma igreja mórmon, em Salt Lake. Após o veredicto, Gilmore vai para uma prisão-rodeio sem resistir e morre no meio da arena, cavalgando um touro. Para Matthew Barney, a morte de Gilmore significa sua libertação e sua transcendência: no take seguinte dois caubóis texanos dançam em torno de uma sela de prata (ou de Gilmore). De forma apoteótica, a cena final mostra a sela de prata flutuando sobre a imponente paisagem dos campos de gelo ao norte do Canadá, símbolo da ascensão de Gilmore para o mundo de seu avô Houdini. Final do filme.

O mais recente trabalho do artista, “Cremaster 3”, filme de três horas, de 2002, sintetiza o “Ciclo Cremaster”. Quem espera por um desvendamento ou explicação da narrativa de Matthew Barney, engana-se novamente: histórias paralelas se entrecruzam como em um jogo de xadrez. Trata-se de mais uma odisséia do artista, arquitetada no extravagante arranha-céu da Chrysler, em Nova York, e ambientada nos turbulentos anos 30, quando a proibição era a lei e gangues criminosas agiam pela cidade.

A narrativa que está por trás do filme é a dos imigrantes irlandeses que atuavam, nessa época, através de sindicatos. Presentes no filme estão objetos nas cores verde e laranja da bandeira irlandesa, melodias populares da Irlanda e a lenda celta do gigante Fionn MacCumhail, que se passa nas formações rochosas na costa norte da Irlanda, e que conta a história do surgimento da Isle of Man (também locação de Cremaster 4).

O imponente prédio Chrysler torna-se, no filme, cenário de uma luta de forças entre um aprendiz de pedreiro (Barney) e o arquiteto do prédio Chrysler (o artista plástico Richard Serra). Take 1: a cena é fúnebre e mostra cinco garotos ruivos carregando um cadáver feminino do subsolo para o “foyer” do prédio. Eles acomodam o corpo dentro de um carro Chrysler Imperial anos 30, que passa a ser atacado repetidamente

Take 2: o aprendiz de pedreiro-Barney, trajando um típico avental com bolsos para diferentes apetrechos, começa a subir para a torre do prédio, através do buraco de um dos elevadores. Ao alcançar a parte de cima da cabine do elevador, ele passa a misturar cimento e água e vai, paciente e disciplinado, preenchendo de forma sistemática o cubo do elevador, cumprindo uma das primeiras tarefas de um aprendiz de pedreiro.

Como a intenção do pedreiro foi sabotar a construção do prédio, a próxima cena (take 3) é a de sisudos sindicalistas, reunidos em uma pequena sala ao lado do bar Cloud Club (no 68º andar do prédio), conspirando sobre seu destino. Atrás do balcão do bar (construído com vaselina e que está na exposição) está um confuso e inábil garçom que se confunde ao servir cerveja aos homens e só consegue fazê-lo depois de derrubar e quebrar muitos copos e outros objetos.

O take 4 se passa em uma sala, no fundo do bar, onde se encontra uma silenciosa mulher que corta batatas com uma cunha de cinco lados, presa no salto de seus sapatos. Os pedaços de batata são então jogados por baixo do bar.

Take 5: nessa cena, o pedreiro e sua acompanhante assistem, no hipódromo Saragota Springs, em Nova York, a uma corrida. Cinco equipes de cavaleiros trajando, cada um, uma das bandeiras dos cinco “Cremasters”, correm atrás de um automóvel Chrysler Imperial dos anos 30. Os cavalos chegam ao limite de exaustão: morte e desintegração são apresentadas na cena em que suas peles e carnes soltam-se dos corpos. O cavalo sobrevivente é o que tem a bandeira de “Cremaster 3”.

Take 6: durante a corrida, o aprendiz-Barney e sua acompanhante são abordados por bandidos que lhe quebram todos os dentes. Na cena seguinte (take 7), o ensangüentado pedreiro é levado para uma sala de dentista, no prédio Chrysler, onde é submetido a uma cirurgia de implante de dentes de metal, construídos a partir do que sobrou do carro Chrysler destruído. É nessa sala também que ele passa por uma segunda cirurgia, a de um preenchimento de seus órgãos genitais ou uma metamorfose, realizada pelo arquiteto-Serra.

Take 8: a cena mostra o arquiteto em seu escritório, no último andar, em meio às maquetes e aos desenhos do prédio, preparando-se para subir à torre do prédio.

Take 9: outra metamorfose, desta vez fílmica, nos leva ao interior do museu Guggenheim, com seus cinco andares circulares, onde o performático Barney-aprendiz –agora com um lenço ensangüentado na boca e vestido ora com um kilt (traje típico escocês), ora com um avental hospitalar- tem que escalar. Esse “pentatlo” (na Antiguidade, o conjunto de cinco exercícios atléticos: corrida, arremesso de disco, salto, lançamento de dardo e luta) representa a ordem e a disciplina olímpica da antiga Grécia e é um rito de iniciação e de conhecimento do aprendiz.

Como nos jogos esportivos, para alcançar cada andar, ele tem obstáculos a vencer. Cada um dos takes seguintes apresenta um andar a escalar. A cada andar, Barney se defronta com diferentes cenas e personagens que remetem aos outros filmes do “Ciclo Cremaster”: garotas de teatro de revista no primeiro andar; gangue de punks e heavymetals no segundo; a atleta olímpica Aimee Mullins, ora com pernas postiças de cristal, acompanhando o aprendiz-Barney, ora transformada em um leopardo que luta com o pedreiro, ou o alter-ego do artista, no terceiro andar; uma grande gaita de fole, feita de vaselina e que tem a configuração de um bode, no quarto andar.
Depois das etapas vencidas, o aprendiz de pedreiro volta ao andar térreo transformado em mestre. Ele pode agora vencer o arquiteto. Último take: retomando sua escalada para a torre do prédio Chrysler, aprendiz e arquiteto se encontram e se fundem em um híbrido, no topo da pirâmide de metal do arranha-céu, em um deus sobre a terra.

Multiartista, fenômeno cultural, escultor, cineasta, vanguardista, além de ser o pai do bebê da cantora Björg, Matthew Barney (nascido em 1967, em San Francisco) trabalha desde 1994 na construção de um mundo mítico-artístico, que funde elementos da mitologia grega, do barroco, do surrealismo e do cinema americano.

Uma produção que atravessa estranhos domínios, passando pelo teatro, dança, música, sua arte tem um olho no futuro, enquanto o outro aponta para o passado. Pouco conhecido no Brasil, seu trabalho foi apresentado na coletiva de arte “Das Américas II”, no Museu de Arte de São Paulo, em 1995, e o filme “Cremaster 2” foi exibido em 2000 no Festival Internacional de Filmes do Rio de Janeiro.