Navigation
Blog Index
The journal that this archive was targeting has been deleted. Please update your configuration.
« Ars Electronica 2011 | Main | Geração transterritorial »
Wednesday
Jul012009

Os novos interatores

POR MARIA TERESA SANTORO
REVISTA TROPICO

2009


Festival de arte e tecnologia na Holanda busca transformar o público em cocriador das obras

 

 

 

 

 

 

 

 

A artista Laurie Anderson visita a obra “Infinito ao Cubo”, no festival holandês STRP.
Foto: Leonardo Crescenti

 

Você acredita em tudo que vê, ouve, sente ou toca? Pois o festival holandês STRP pode provar que nem tudo é verdade.

Em seu terceiro ano, o STRP tornou-se um dos maiores festivais de arte e tecnologia da Europa. Aconteceu entre os dias 2 e 13 de abril, em Eindhoven (Holanda), distribuído em galpões desocupados dos antigos laboratórios da Philips, lugar sagrado para os amantes das tecnologias.

Esse complexo industrial recebeu o nome Strijp-S, do qual derivou o nome do festival. Foi ali que Fritz Philips desenvolveu os primeiros gravadores cassetes, CDs e VHS e trabalhou com artistas da época, possibilitando que eles implementassem suas idéias tecnológicas.

Multidisciplinar em sua essência, o festival reuniu o que há de mais novo em música eletrônica, instalação interativa, arte performática e robótica, em todo o mundo. Conforme disse a curadora Vivian van Gaal, os trabalhos ofereciam uma experiência ao mesmo tempo poética e emocional, pois buscavam mostrar que a tecnologia não é só uma coisa prática ou abstrata, mas pode também se transformar em experiência artística excitante, ao criar mundos novos ou oferecer situações inesperadas, permitindo ao visitante se transformar em ator e receptor das ações propostas pelos trabalhos.

Foi o que a dupla de artistas brasileiros Rejane Cantoni e Leonardo Crescenti fez, com a instalação "Infinito ao Cubo". O trabalho consistiu num cubo de 3 m3, espelhado por dentro e por fora e sustentado por pivô e molas, que balançavam quando a pessoa se movimentava dentro dele. Ao tocar em suas paredes, olhar para os lados, para cima ou para baixo, tudo se transformava, como em um jogo, uma ficção, duplicando e fragmentando as imagens do visitante. Ou será que eram os sentidos que nos traíam?

O apelo à experiência corporal e à interatividade foram os pontos fortes do festival. Quando alguém entrava na instalação "Jump", da belga Yacine Sebti, sua imagem aparecia duplicada na tela, junto com a imagem de outros corpos que pulavam e gesticulavam em tempo lento. Quando esse espectador também pulava, sua imagem se misturava a de outros “interatores”, e ele passava a ser mais um personagem dentro da cena. Na performance "Dansmachine4", o dançarino holandês Jerome Siegelaer movimentava seu corpo em um palco e se transformava no ator virtual das imagens reproduzidas nas várias telas que formavam uma instalação. Depois da performance, no palco vazio, o visitante era convidado, através das imagens do dançarino, a executar sua performance também. Essas novas imagens se misturavam às do artista, e o visitante passava a habitar a obra. Após olhar, tocar, mexer e se deslocar entre as obras, nada era mais o mesmo. Você ia mudando, e a obra mudava junto com você -ou será que ocorria o contrário?

Também o trabalho "Liquide Space 6.0", do holandês Daan Rossegaarde, questionava a nossa percepção. Ao entrar no interior dele, o visitante se perguntava: trata-se de uma escultura ou de um espaço interativo? Através de nossos movimentos, os mecanismos eletrônicos dos três suportes da escultura de fios e cabos iluminados ampliavam ou encolhiam, em altura e em largura, e o visitante criava sua própria escultura ou seu espaço.

Curioso por um robozinho de seis pernas? Ele se chama "iC Hexapod", foi criado pelo artista britânico Matt Danton e se movimentava ao identificar o visitante, seguindo-o com sua cabeça e levantando suas pequenas pernas, ao mesmo tempo em que capturava a imagem da pessoa e a registrava em seu website.

Por falar em robôs, você já pensou em se transformar em ciborgue? Pois o músico japonês Suguru Goto, sim. Na performance "Augmented Body", dois dançarinos, vestidos com uma malha preta equipada com sensores, executavam movimentos ritmados, que eram registrados e projetados em uma tela gigantesca, criando um efeito de quebra-cabeça para o observador diante dos corpos reais e virtuais ao mesmo tempo.

O STRP deste ano foi dedicado à dupla de artistas austríacos Kurt Hentschläger e Ulf Langheinrich, que surpreendeu o mundo eletrônico nos anos 90, ao criar instalações de grande impacto físico e emocional. Duas delas, da série "Granular Synthesis", foram recriadas. Seus efeitos hipnotizantes continuam intactos, testando os sentidos dos espectadores. Muitos destes ficaram tontos e enjoados e tiveram que se afastar da obra.

Nos finais de semana, os visitantes também contaram com muita música acústica e shows eletrônicos, como o da artista multimídia americana Laurie Anderson, que apresentou "Songs and Stories 09", uma mistura de música instrumental, teatro e performance usando tecnologia digital.

Ao atravessar os pavilhões que compõem o complexo Phillips, podia-se observar a eclética audiência, uma mistura de gente de todas as idades, artistas, curiosos e especialistas em mídia eletrônico, comprovando a intenção do festival de criar um evento para o grande público.

O STRP, em seus dez dias de exibição, deixou vários questionamentos sobre a arte e a tecnologia contemporâneas, principalmente no que diz respeito ao novo papel do público como “interator” das obras, como agentes participativos dos próprios trabalhos.