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Thursday
Jul012004

Os corpos de Alex Flemming

POR MARIA TERESA SANTORO
REVISTA TROPICO

2004


O artista plástico exibe em SP seus tapetes voadores que questionam ocidentes e orientes

 

S/título, série "Body Builders", de A. Flemming/Col. particular

 

 

 

Desmontar, desconstruir, desvestir, descascar, raspar, misturar, sobrepor, repor, refazer, recuperar, revestir, renomear, construir, reconstruir, reutilizar, colar, recolar, a arte do paulista Alex Flemming prima pela produção em permanente processo, em um denso trabalho que explora as extensões e os limites do tema e do material.


Uma mescla de idéias inusitadas –de indecifráveis textos, estranhas texturas, diferentes suportes e tintas berrantes. Uma arte provocativa, feita de corpos estampados ou corpos des-reconstruídos, de móveis, objetos e roupas revestidos de cores metálicas, de animais empalhados, coloridos etc.

Pensando e compondo em série, há no trabalho de Alex Flemming a preocupação com o fazer e com o documentar os passos, em organizar as etapas e até em mostrar o processo da produção que, na tela e em outros suportes, aparece às vezes de forma camuflada, às vezes se escancarando, em uma tradução do mundo e de si. Muitas dessas séries são recombinadas em diferentes cores, texturas e suportes, propondo-nos uma gama de possibilidades de leitura.

Um novo conceito de beleza? Mais do que isso, trata-se de um jogo entre a transparência, a espessura e o que está escondido. E o que toda essa produção espelha é a própria trajetória do artista, um exilado voluntário.

Vivendo entre duas caóticas metrópoles –São Paulo e Berlim–, Flemming fala de seu trabalho de modo provocativo e apaixonado. Ele conta suas inquietações e reflexões referentes à vida e à morte, à temas políticos e culturais, retratados em sua obra de uma forma pouco convencional, como se o objeto artístico, este sim, fosse seu elo de encontro com a vida, entre mundos, países e temas, em um vir-a-ser do artista e da obra. Uma recorrência de que a arte imita a vida?

Nessa nação artística, o corpo é um assunto constante. Desde a década de 80 o artista retrata ou utiliza o corpo humano, ora como tema, ora como suporte para a discussão de temas políticos, sociais e culturais.

Há, em seu trabalho, uma reflexão sobre o corpo e sobre o humano, sobre o corpo vivo e o morto, sobre o uso do corpo como identidade, como ausência ou como memória. Enfim, pode-se dizer que Flemming tem no corpo e suas possibilidades de significação e ressignificação um de seus principais focos.

A beleza do corpo humano é carnalmente explorada na tela “Torso”, de 1983. Esse quadro apresenta um peito masculino nu, repartido em quatro retângulos, emoldurados por diferentes cores e texturas, em uma reverência ao corpo vivo e exuberante ou como um convite ao prazer, ao sexo e à vida. Aqui, assim como em outros trabalhos onde aparece a figura desnudada, o artista mostra, discute e homenageia o corpo em sua aparência física, em sua pujança e no apelo erótico que o nu desperta.

O corpo humano pode ainda servir de suporte para a denúncia-crítica da sociedade contemporânea, como as fotos retrabalhadas da série “Body Builders”, de 2002, na qual o artista imprime, sobre peles de corpos atléticos, mapas de regiões do mundo em conflito.

Novamente o nu, desta vez gigantescamente elevado, espacializado e carnavalescamente colorido, que denuncia visual e verbalmente. Nessa série de corpos modelados, a contemporaneidade da obra do artista aparece na forma de seu engajamento com a história, com a tecnologia e com a arte.

O corpo humano presente e em foco também aparece nas gigantescas fotos de personagens anônimos, como nos documentos burocráticos, sobre as quais o artista respinga letras coloridas, que formam poemas de autores consagrados, em um trabalho de 1998.

Montando outdoors na estação Sumaré do metrô paulista, em 44 telas de vidro transparente, Flemming elabora um código para o usuário decifrar o que está es/inscrito sobre as fotos, pondo ordem em sua percepção. Nessa série, o artista destaca rostos da multidão, fazendo um comentário à indiferenciação social e ao anonimato.

O corpo também se torna memória ou relíquia na tela “Múmia”, de 1988. Trata-se de uma metaforização das figuras tradicionais de múmias, a partir de uma idéia já estabelecida culturalmente, mas que é aqui reelaborada em uma versão translúcida, perpassada por um fundo de pinceladas em tons claros, etéreos. São três figuras-múmias “quase” espirituais, suspensas na tela, prontas para o reverenciamento do receptor, seja por ele estar diante dos segredos que a múmia esconde, seja pela idéia de morte e eternidade do corpo que essas figuras sugerem.

Há ainda a série de corpos religiosos. Nessa série, o artista toma exemplos de imagens religiosas populares e as reveste com cores, texturas e recortes inusitados. Na tela “Anjo”, de 1984, por exemplo, Flemming trabalha sobre oito retângulos que, juntos, mostram o contorno da figura de um anjo. Fundo e figura se misturam através das cores fortes, das pinceladas coloridas e da própria montagem das oito partes, compondo uma sobreposição de informações visuais, onde a interferência cria o signo novo.

Flemming é um artista que se rende ao corpo humano. Em uma nova forma de apresentar e de representar o corpo, sua obra toma o corpo físico como figura, como identidade, coloca-o em um pedestal e o reverencia, seja enfatizando-o plasticamente, seja transformando-o para além de suas fronteiras naturais, seja expandindo ou dilacerando o corpo ou suas partes.

O corpo de Alex Flemming assume identidades variadas e pode estar até ausente, como na série das roupas coloridas metalicamente, mas é sempre belo e vivo, porque é provocativo, diverso, distinto, humano. É um corpo que sai da multidão, do apagamento social e cultural e se torna centro, tema e obra. Seu mais recente trabalho revela um engajamento político. Na inédita produção “Tapetes Voadores”, Alex Flemming manifesta sua indignação frente a atos extremistas, aflorando um sentimento que é compartilhado por qualquer cidadão sensato do planeta.

A inauguração da exposição “Flying Carpets”, na Galeria Sylvio Nery, coincidiu provocativamente com o segundo aniversário dos atentados que derrubaram as torres gêmeas do World Trade Center, em Nova York.

Fazendo uma alusão aos milenares tapetes voadores orientais das “Mil e Uma Noites” e à moderna tecnologia da aeronáutica ocidental, os gigantescos aviões construídos pelo artista com pedaços de tapetes orientais instauram a denúncia e rememoram a questão Oriente versus Ocidente que tanto perturba este início do século 21.